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Aos 27 anos, Unegro comemora vitórias e aponta novos desafios

O destaque que os principais jornais na Bahia deram no dia 14 de julho de 1988 esteve relacionado às comemorações no mundo do 199º aniversário da Tomada da Bastilha (1789), episódio central da Revolução Francesa. Nenhuma linha foi dedidcada a um evento local que tinha os mesmos ideais do movimento francês (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) e que também pretendia revolucionar.

Foi reunido na Biblioteca Pública do Estado, no bairro dos Barris, em Salvador, que o grupo, com orientação marxista e ligado ao movimento negro baiano, lançava, naquele 14 de julho de 1988, a Unegro (União de Negros pela Igualdade). Com o acontecimento, surgia uma nova perspectiva na condução da luta antirracista no Brasil. Sob influência do professor Clóvis Moura, respeitado e pioneiro pesquisador do tema, a entidade rompeu com o entendimento predominante de que racismo era um fenômeno isolado de separação de brancos e negros.

Ao contestar a visão reducionista do movimento negro – e também da esquerda -, a Unegro propôs entrelaçar às questões de raça a uma concepção de classe. Formou, assim, a base que conduziria a atuação da entidade dali pra frente – depois, foi incluída também a questão de gênero. O momento da criação foi propício, dadas as condições favoráveis do novo cenário político, marcado pelo fim da ditadura militar (1964-1985) e pelo início do processo de redemocratização do país. Ainda assim, a criação da Unegro não se deu sem resistências.

O primeiro desafio da entidade foi interno. O rompimento com a lógica proposta pelo movimento negro da Bahia, até então muito caracterizado pelas atividades culturais, com a atuação dos blocos afros de carnaval, não foi de todo pacífico. A Unegro defendia um enfrentamento mais ‘rebelde’ do racismo. “O negro não quer só tocar tambor” era uma das frases apresentadas pela nova corrente. Em relação à esquerda, a entidade contrariou o entendimento de que era preciso esperar as transformações sociais acontecerem para se conquistar a igualdade racial. Propunha uma luta concomitante.

“A Unegro levou para setores vastos a importância de lutar contra o racismo hoje e não esperar as transformações da sociedade. Antes, achava-se que o racismo era uma questão a ser resolvida com a questão de classe. Existiu uma certa discriminação, mas, à medida que a Unegro começou a desenvolver suas lutas e estar ao lado das entidades do movimento, foi conseguindo espaço. Mas foi um processo longo”, contou Antônio Carmo, fundador e 1º presidente da entidade.

O segundo desafio foi externo e estava relacionado à disseminação, naquele período de abertura política, da ideia de que havia uma democracia racial no Brasil. A defesa da Unegro é de que o racismo era muito mais profundo do que se supunha e que estava enraizado na sociedade brasileira. Mirou-se na acadêmica, antro de brancos, para deixar um recado: o negro não quer mais ser apenas o objeto de estudo; o negro quer produzir estudo.

Nivaldino Félix, também um dos fundadores, explicou que os anseios por uma ‘rebelião’ no modo do negro estar na sociedade já eram latentes muito antes de 1988, ano da criação da Unegro. Lembrou de uma atividade considerada fundamental em que ele, Valdir Estrela e Leo Ornellas (também fundadores da Unegro), que formavam um grupo informal de negros no bairro de Nordeste de Amaralina, participaram no município de Uberaba (MG), em 1985. Era um encontro proposto pelo prefeito da cidade, Wagner Nascimento, que era negro, com lideranças negras e o então presidente da República, José Sarney.

Em Minas, os três baianos participaram de discussões sobre a importância da ascensão da população negra e da inserção nos espaços de Poder, como forma de garantir um olhar mais sensível para a luta contra a desigualdade. Wagner Nascimento era uma das grandes referências, pois entrou para a História como o segundo prefeito negro do Brasil. Na volta, o trio estava embebido pelo desejo de transformação social e encontrou novos parceiros para a organização de um grupo mais sólido e formal, como Antônio Carmo, que se tornaria o 1º presidente.

A escolha do nome foi feita democraticamente e traduz, segundo Antônio Carmo, as bases que compõem a entidade. A ‘União de Negros’ está relacionado à luta racial e ‘pela Igualdade’ se refere ao ideal socialista. Nivaldino lembra que a primeira atividade, após a criação, aconteceu também na Biblioteca Pública dos Barris e se tratava de um debate sobre o negro e as crianças abandonadas nas periferias. Disse que foi um sucesso. “Foi muita gente ouvir as nossas propostas”, contou.

As primeiras tarefas, ainda de acordo com Nivaldino, estavam concentradas no esforço de ampliar os debates sobre o racismo, principalmente, nos bairros populares de Salvador. Foram criados núcleos nas comunidades da Liberdade, Nordeste de Amaralina e Cosme de Farias. “Nós construímos a entidade dentro das comunidades. A gente precisava fazer uma discussão diferenciada e levar para a negrada”, acrescentou Nivaldino.

Antônio Carmo explicou que o objetivo, naquele primeiro momento, era atuar em conjunto e de maneira mais ampla. “O grande esforço foi tirar o movimento negro do gueto, pois ficava preso em estereótipos e dogmas que atrasavam muito a luta da discriminação”. Ao analisar a história da Unegro, disse que muitas vitórias foram alcançadas em relação a esse objetivo, mas que ainda muito é preciso fazer pela mobilização do povo negro.

Pouco mais de um ano após a criação, em setembro de 1989, a Unegro apresentou, em parceria com o Olodum e com a APLB-Sindicato, uma emenda popular à Assembleia Estadual Constituinte, que propunha incluir no documento um capítulo relacionado à discriminação racial. Dos quatro artigos sugeridos, três foram aprovados pelos constituintes. Uma vitória significativa para a entidade recém-criada, que consegue, de fato, o respeito entre o movimento negro e a esquerda.

Neste ano de 2015, a Unegro completa 27 anos, comemorados na última terça-feira (14). Neste percurso, diversas e importantes foram as mobilizações de combate ao racismo não só na Bahia. A entidade cresceu, se espalhou e deixou de ser estadual. Hoje, está presente em 24 estados e no Distrito Federal. Comemora as recentes e históricas vitórias da população negra, como as políticas de cotas nas universidades e no serviço público, a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores domésticos, por exemplo. No entanto, aponta para desafios novos.

“Ainda é preciso muito avançar. O povo precisa ter reparação, política compensatória, com o olhar do povo negro e não com o olhar burguês e capitalizado. Tudo isso é muito pouco diante do que o povo negro sofreu nessa nação. Produziu a riqueza desse País e essa riqueza nos foi negada. A riqueza da educação e da terra, que representa a dignidade da pessoa humana”, afirmou Sirlene Assis, presidenta da Unegro na Bahia. Ela defendeu que tarefa, agora, é enegrecer os espaços.

Sirlene é a primeira jovem a presidir a instituição e diz que encara o desafio com a responsabilidade de falar para e pela população negra. “Presidir a Unegro é uma missão da minha ancestralidade”, disse. É também a segunda mulher na liderança estadual. A primeira foi Olívia Santana, um dos nomes mais expressivos do movimento negro, hoje. Olívia foi vereadora de Salvador e teve o mandato voltado, principalmente, para as políticas de igualdade. Atualmente, está à frente da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo do Estado e da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PCdoB.

Nacionalmente, a Unegro é presidida por Edson França. O próximo congresso está marcado para acontecer em abril do ano que vem. A entidade é uma das poucas a conseguir fazer congresso de quatro em quatro anos e a reunir uma média de 800 delegados nos encontros. Os desafios para a entidade são, para Jerônimo Júnior, secretário nacional de Organização, na verdade, sempre os mesmos: continuar buscando a unidade da sociedade brasileira.

De Salvador
Erikson Walla

Portal Vermelho www.vermelho.org.br

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